OBRAS & CONSTRUÇÃO XXI: Obras de luxo - remodelar uma casa de praia com materiais exclusivos...
Remodelar uma casa de praia é um o exercício difícil: o mar é um hóspede que nunca sai e passa o dia a atacar tudo o que tem lá dentro. O sal entranha-se nas dobradiças, a humidade levanta o reboco, a areia risca os pavimentos e o sol de Verão desbota qualquer cor mal escolhida em duas épocas balneares.
Quem já teve casa à beira-mar sabe disto: aquilo que parecia luxuoso na loja pode estar irreconhecível ao fim de três anos.
Por isso, o luxo junto ao mar obedece a regras próprias. Acumular materiais caros não chega, e às vezes até atrapalha. O que conta é escolher materiais capazes de serem ao mesmo tempo extraordinários e resistentes à agressão constante da maresia.
E há aqui uma vantagem que muita gente ignora: algumas das melhores respostas são portuguesas.
O que o mar faz aos materiais
Antes de escolher uma única peça, vale a pena perceber contra o que está a lutar. A maresia é uma névoa salina que se deposita em todas as superfícies e acelera a corrosão dos metais.
A humidade relativa do ar é quase sempre alta junto à costa, o que favorece bolores e empena madeiras mal curadas. E a radiação solar, mais intensa pela reflexão na água e na areia, ataca pigmentos, vernizes e plásticos.
O caminho do luxo que dura passa, então, por materiais nobres com tolerância à água, ao sal e à luz. É exactamente o perfil da pedra natural, do grés porcelânico, da cortiça e da lã.
A pedra portuguesa: a base de tudo
Se há material que diz luxo e ao mesmo tempo aguenta décadas, é a pedra natural. E Portugal tem das melhores do mundo à porta de casa.
O calcário Lioz, extraído na zona de Pêro Pinheiro e usado no Mosteiro dos Jerónimos e na Torre de Belém, tem tons que viajam entre o bege e o rosado, com um desenho fóssil inconfundível.
O Moca Creme e o Moleanos, calcários beges, são opções mais sóbrias e muito procuradas para pavimentos contínuos.
O mármore de Estremoz, da anticlinal alentejana de Vila Viçosa e Borba, com o branco e o rosa que decoraram meio país no barroco.
Numa casa de praia, a pedra resolve pavimentos, escadas, bancadas de cozinha e casas de banho com elegância. Há, porém, há cuidados a ter porque os calcários e os mármores são porosos e, junto ao mar, absorvem sal e humidade.
A aplicação de um selante hidro-oleofugante de qualidade, renovado de tempos a tempos, é o que mantém a pedra bonita ao longo dos anos.
Vale a pena saber que existem casas de praia com pavimentos em mármore branco de Estremoz com mais de vinte anos que continuam impecáveis, precisamente porque foram tratadas e respeitadas desde o início.
O grés porcelânico: o luxo que não pede desculpa
Quando a manutenção da pedra natural assusta, há uma alternativa à altura, e também ela portuguesa. O grés porcelânico de grande formato evoluiu ao ponto de reproduzir mármores e pedras com um realismo notável, mas sem a porosidade.
Marcas nacionais como a Margres, que produz em Ílhavo desde 1982 e foi uma das primeiras fábricas de porcelânico do mundo, a Love Tiles ou a Revigrés têm colecções com efeito pedra e mármore que enganam o olho e resistem ao que o mar lhes atira.
A vantagem para uma casa de praia é dupla. Por um lado, o porcelânico não mancha, não absorve sal e limpa-se com um balde de água. Por outro, existe em versões antiderrapantes para zonas molhadas, o que permite usar o mesmo desenho dentro de casa e no terraço ou na zona da piscina.
É assim que se cria aquela continuidade visual entre interior e exterior que define as casas de praia mais conseguidas. Em placas de grande dimensão, com juntas mínimas, o resultado tem uma sobriedade que combina bem com a luz do litoral.
A cortiça: a assinatura portuguesa
Nenhuma casa portuguesa de luxo contemporâneo está completa sem cortiça, e numa casa de praia ela faz ainda mais sentido. A cortiça tolera bem a humidade, isola termicamente, o que poupa no ar condicionado em Agosto, e absorve som, dando aquele silêncio macio às divisões.
A Amorim, líder mundial do sector, tem soluções que vão muito além das antigas placas de aglomerado. O Hydrocork, um pavimento flutuante de núcleo de cortiça resistente à água e com apenas seis milímetros de espessura, foi pensado precisamente para zonas húmidas e para reabilitações.
Para as paredes, há os revestimentos decorativos Dekwall e os painéis de aglomerado de cortiça expandida à vista, com relevos que dão textura sem pesar na decoração.
E há uma colaboração particularmente bonita, a Burel Cork Wall, que cruza a cortiça com o burel da Serra da Estrela num único revestimento de parede, dois materiais portugueses reunidos no mesmo gesto.
A madeira certa para quem vive com sal
A madeira é o material que aquece uma casa de praia e, ao mesmo tempo, o que mais sofre quando é mal escolhido. Madeiras macias e mal tratadas empenam, racham e enegrecem em poucas épocas.
Para exteriores expostos, como decks e pérgulas, vale a pena olhar para madeiras termotratadas, que passam por um processo de aquecimento que as torna mais estáveis e resistentes à humidade, ou para espécies naturalmente densas.
No interior, o carvalho continua a ser o clássico seguro, desde que protegido com óleos próprios e mantido longe do contacto directo com a água.
O segredo, em qualquer caso, é a manutenção. Uma madeira exterior junto ao mar pede um óleo de protecção uma a duas vezes por ano. Quem não estiver disposto a esse compromisso fica melhor servido com o porcelânico de efeito madeira, que dispensa cuidados e resiste a tudo.
Materiais que resistem bem à vida à beira-mar:
1 - Grés porcelânico de grande formato, para pavimentos interiores e exteriores e para zonas molhadas.
2 - Pedra natural portuguesa selada, para bancadas, pavimentos nobres e casas de banho.
3 - Cortiça em pavimento resistente à água e em revestimentos de parede.
4 - Madeiras termotratadas ou densas, tratadas com óleo, para decks e estruturas exteriores.
5 - Inox marítimo (316) e alumínio lacado, para ferragens, caixilharia e metais à vista.
6 - Burel e fibras naturais, para o conforto têxtil que envelhece com graça.
Os têxteis e o toque final
Uma casa de praia de luxo não se resume a superfícies duras. O conforto vem dos têxteis, e é aqui que entra um dos materiais mais interessantes que Portugal tem para dar: o burel.
A Burel Factory, nascida em Manteigas em 2008 a partir de uma fábrica recuperada, produz este tecido de lã da Serra da Estrela com propriedades surpreendentes para o contexto costeiro.
O burel resiste à água em quase 99% e seca depressa, isola do calor e do frio e absorve som. Em mantas, almofadas, cortinados e até nos painéis de parede da linha Burel Architecture, traz cor e textura sem cair no decorativo barato.
Ao burel juntam-se o linho, o algodão natural e as fibras vegetais, que envelhecem bem e suportam a luz forte do Verão. A regra é simples: quanto mais natural a fibra, melhor convive com o sal e com o sol.
Quanto custa?
Uma remodelação de casa de praia com este nível de exigência não tem preço fechado, mas tem ordens de grandeza. Trabalhar com pedra natural portuguesa, grés porcelânico de grande formato, cortiça de gama alta e boa caixilharia eleva o custo por metro quadrado bastante acima de uma obra corrente.
Um projecto de interiores cuidado, com materiais nobres e acabamentos à medida, parte com facilidade das dezenas de milhares de euros e sobe conforme a área e o grau de personalização.
Os materiais certos reduzem muito a manutenção, mas não a eliminam, porque o sal não tira férias. Em troca, recebe uma casa que envelhece bem, que valoriza num mercado onde o litoral português é dos mais procurados da Europa, e que tem aquela qualidade rara de parecer simples sendo, na verdade, profundamente trabalhada.
E há um bónus de que poucos falam. Escolher materiais portugueses significa ter o fornecedor a uma hora de distância quando, daqui a uns anos, precisar de substituir uma peça ou refazer um acabamento. À beira-mar, isso acaba por valer ouro.
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