OBRAS & CONSTRUÇÃO XXI: Adeus ao mármore na cozinha - as bancadas que não riscam nem mancham...

Portugal figura entre os maiores exportadores mundiais de mármore, e o coração dessa indústria está no Alentejo, no chamado Anticlinal de Estremoz, que junta Estremoz, Borba e Vila Viçosa e concentra cerca de 90% da produção nacional. Mesmo assim, dentro de casa, essa pedra está a ceder lugar na cozinha a materiais mais resistentes.

Nas remodelações mais recentes, o mármore está a ceder o protagonismo da bancada a superfícies que aguentam melhor o uso diário. As alternativas que ganham espaço são o grés porcelânico, a pedra sinterizada, o quartzito e o quartzo aglomerado, todas mais resistentes a riscos, calor e nódoas.

Porque é que o mármore sofre na cozinha



O mármore é uma rocha calcária, composta sobretudo por carbonato de cálcio. Essa composição explica os principais problemas numa zona de trabalho:

Porosidade: vinho, café, azeite ou sumo de limão podem penetrar na superfície e deixar marcas difíceis de remover, por vezes permanentes.

Reacção aos ácidos: os ácidos presentes em muitos alimentos podem corroer o polimento e deixar manchas foscas, mesmo com a bancada selada.

Dureza: o mármore risca-se com facilidade. O corte, o arrasto de panelas ou a queda de utensílios deixam sinais visíveis.

Para se manter apresentável, pede selagem periódica e cuidados que nem toda a gente quer ter numa cozinha de utilização intensa. Já tínhamos sinalizado o mármore entre os materiais a evitar na bancada em 2026, sobretudo para quem cozinha todos os dias.

Que superfícies estão a substituir o mármore?



Quatro materiais surgem frequentemente nas remodelações de bancadas de cozinha por combinarem resistência e um aspecto próximo da pedra natural:



Grés porcelânico: cozido a alta temperatura, tem porosidade muito baixa e resiste bem a riscos, calor e produtos de limpeza. As placas de grande formato permitem bancadas com poucas juntas e continuidade visual, uma vantagem em cozinhas estreitas ou abertas para a sala. Portugal tem fábricas de grés porcelânico na região de Aveiro, a produzir placas que imitam mármore com maior resistência ao uso diário.

Pedra sinterizada: obtida pela compactação e sinterização de minerais sob calor e pressão, é uma das superfícies mais densas do mercado. Resiste bem a riscos, calor, nódoas e radiação solar, sendo adequada para cozinhas interiores e exteriores.

Quartzito: pedra natural rica em quartzo, mais dura do que o mármore e mais resistente a ácidos e riscos. Mantém-se porosa, por isso pede selagem periódica para não absorver líquidos.

Quartzo aglomerado: mistura de quartzo moído com resinas, tem baixa porosidade e dispensa selagem. Limpa-se com facilidade, mas as resinas suportam pior o calor muito elevado. Convém usar bases para tachos quentes e evitar o contacto directo com a chama.

O granito continua a ser uma alternativa sólida e disfarça bem as marcas de uso, embora tenha perdido algum protagonismo estético e também peça selagem de tempos a tempos.

Quanto a preços, o quartzo aglomerado e o quartzito situam-se, em regra, num patamar mais alto do que o porcelânico de gama média, e a pedra sinterizada acompanha o topo. A diferença de custo raramente se explica apenas pelo material, porque o acabamento, a espessura e a complexidade da montagem pesam bastante no orçamento final.

E o mármore, fica sem lugar?



O regresso das superfícies técnicas não condena o mármore ao esquecimento. Numa casa de banho bem selada, numa parede, numa lareira ou num tampo de pouco uso, a pedra mantém a beleza sem sofrer o desgaste de uma zona de preparação de alimentos. 

A tendência aproxima-se, por isso, de uma troca de divisão para um material que continua a ter procura e valor decorativo.

Há ainda um argumento a favor de superfícies mais resistentes que ultrapassa o gosto pessoal. A classe energética e o estado de conservação entraram na conversa de quem compra e arrenda, e uma cozinha com acabamentos duradouros ajuda a valorizar o imóvel. 

Uma bancada que se mantém bem ao fim de dez anos poupa uma remodelação antecipada e transmite melhor cuidado com a casa.

A vantagem portuguesa: da pedra à cerâmica técnica



Portugal está presente nos dois lados desta mudança. O mármore alentejano do Anticlinal de Estremoz é uma das imagens de marca do país, com extracção que remonta ao período romano e presença em edifícios de referência e em obras exportadas para mercados como os Estados Unidos e a China. 

Ao mesmo tempo, a indústria cerâmica nacional, concentrada sobretudo na região de Aveiro, produz grés porcelânico de grande formato que compete directamente com as pedras naturais na bancada.

Essa dupla condição dá outra leitura à mudança dentro de casa. A perda de espaço do mármore na cozinha corresponde, em boa parte, a uma transferência de valor entre dois setores da mesma economia, ambos com peso nas exportações e no emprego qualificado. 

Para o consumidor, o resultado é uma oferta ampla de superfícies fabricadas em Portugal, com aspecto de pedra e maior resistência ao uso.

Vale olhar também para o desenho da cozinha. As placas de grande formato mudaram a forma de projectar bancadas, penínsulas e frentes, ao reduzir juntas e permitir revestir tampo e parede com a mesma peça. 

Essa continuidade visual, difícil de obter com pedra natural, é um dos motivos pelos quais muitos ateliers optam pela cerâmica técnica em projectos contemporâneos.

Antes de escolher a bancada

Há pontos concretos que separam uma bancada bonita no primeiro dia de uma bancada que se mantém bem ao longo dos anos.

Uso real da cozinha: quem cozinha e corta todos os dias precisa de mais resistência do que quem usa pouco a bancada.

Porosidade e selagem: materiais porosos como o quartzito exigem selagem periódica. O grés porcelânico e o quartzo não exigem normalmente esse cuidado.

Calor directo: o quartzo aglomerado suporta pior tachos muito quentes, enquanto o grés porcelânico e a pedra sinterizada tendem a ter maior resistência ao calor.

Espessura e juntas: o grés porcelânico e a pedra sinterizada permitem placas finas, por vezes a partir de 12 mm, e bancadas com poucas juntas. A pedra natural costuma ficar entre 20 e 40 mm.

Orçamento total: além do material, conta a medição, o transporte, a montagem e a instalação de lava-loiça e placa.

Interior ou exterior: para cozinhas exteriores, a pedra sinterizada tem boa resistência à radiação solar.

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