OBRAS & CONSTRUÇÃO XXI: Obras em casa - telhados verdes - moda ou investimento inteligente?

Sobe até ao topo da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e encontra aquilo que parece um relvado comum junto à entrada. Cerca de um terço da área do jardim da Gulbenkian é, no fundo, cobertura verde, e foi a primeira a surgir em Portugal, ainda na década de 1960.

Desde então, surgiram exemplos como a cobertura da ETAR de Alcântara, o Jardim das Oliveiras no Centro Cultural de Belém, a Praça de Lisboa no Porto ou a Estação da Trindade. Um estudo municipal identificou 131 estruturas com cobertura vegetal no Porto e investigadores estimam que Lisboa tenha 4.545 telhados adequados para receber vegetação.

A pergunta que interessa a quem tem uma casa e pondera a obra é outra: isto é uma tendência estética que vai passar, ou faz sentido do ponto de vista do investimento? A resposta honesta é que depende do edifício, do orçamento e das expectativas. Vamos por partes.

O que é uma cobertura verde?



Os arquitectos chamam-lhe a quinta fachada do edifício. Na prática, é vegetação instalada sobre uma estrutura construída, assente num sistema de várias camadas que garante o desenvolvimento das plantas sem comprometer a laje por baixo. De cima para baixo, uma cobertura verde é composta por vegetação, substrato, camada filtrante, camada drenante, protecção mecânica, barreira anti-raízes e impermeabilização.

Há dois tipos principais, e a distinção importa porque muda tudo: custo, peso, manutenção e resultado.

Cobertura extensiva: é a versão leve. A vegetação, normalmente suculentas e herbáceas resistentes, cresce sobre uma camada de substrato até cerca de 15 centímetros e raramente ultrapassa os 50 centímetros de altura. O conjunto pesa, em geral, menos de 150 kg/m², exige pouca manutenção depois de instalado e é a escolha mais comum quando o objectivo é o desempenho técnico e não o uso do espaço. Não é feita para caminhar por cima nem para receber pessoas.

Cobertura intensiva: é um verdadeiro jardim no topo do edifício, com maior espessura de substracto, arbustos e até árvores de pequeno porte. Permite estar, circular e usar o espaço, mas pesa muito mais, custa mais e exige uma manutenção idêntica à de um jardim convencional. O Jardim das Oliveiras, no Porto, com as suas 50 oliveiras sobre uma galeria de lojas, é o exemplo intensivo mais visível do país.

Para que serve o telhado verde?



O valor de uma cobertura verde mede-se pelos benefícios que traz ao edifício.

Protege a impermeabilização: é talvez o argumento mais subestimado. A membrana de impermeabilização de uma cobertura convencional degrada-se com a radiação ultravioleta e com os ciclos de gelo e degelo. Um telhado verde protege-a dessa exposição e prolonga a sua vida útil, o que significa menos intervenções de reparação ao longo dos anos.

Melhora o conforto térmico: a massa da cobertura funciona como isolamento adicional. Mantém a casa mais fresca no Verão e reduz as perdas no Inverno, com impacto directo nos custos de arrefecimento e aquecimento. Uma camada drenante de argila expandida com 10 centímetros pode acrescentar cerca de 13% ao isolamento térmico da cobertura.

Gere a água da chuva: uma cobertura verde retém entre 50% e 60% da precipitação anual que cai sobre o telhado e chega a segurar até 90% a 100% da chuva nas primeiras horas de uma tempestade. Num país que alterna secas com episódios de chuva intensa e em cidades onde a drenagem urbana fica sob pressão, este é um benefício colectivo e não apenas privado.

Reduz o ruído e melhora o ar: o conjunto de substrato, plantas e camada drenante absorve som, o que se nota sobretudo em zonas de tráfego intenso ou perto de aeroportos. Estudos citados por fabricantes do sector indicam que um metro quadrado de telhado verde pode remover cerca de 0,2 kg de partículas suspensas no ar por ano.

Valoriza o imóvel: a soma de tudo isto, mais o efeito estético, pode traduzir-se em valorização imobiliária. Não é um número fixo, depende do mercado e da localização, mas é um activo que pode pesar na avaliação.

Quanto custa?

Uma cobertura verde é mais cara do que um terraço tradicional. O preço depende do tipo de solução, da área, das plantas escolhidas e da facilidade de acesso à cobertura.

Segundo referências do mercado português, uma cobertura verde extensiva custa, em média, entre 90 e 150 euros por metro quadrado, sem IVA. Uma cobertura intensiva, mais pesada e complexa, pode custar entre 120 e 250 euros por metro quadrado, também sem IVA.

Para uma área de 60 metros quadrados, uma solução extensiva representa um investimento inicial entre 5.400 e 9.000 euros, mais IVA. Uma intensiva na mesma área pode ultrapassar os 15.000 euros.

Há ainda dois custos que muitas vezes ficam esquecidos:

Logística: o acesso à cobertura e os meios de elevação necessários para transportar materiais podem encarecer significativamente a obra.

Estrutura: nem todos os edifícios aguentam o peso de um telhado verde sem reforço. A avaliação deve ser feita por um técnico antes de qualquer decisão.

A manutenção também entra na conta. Numa cobertura extensiva, contam-se geralmente quatro visitas anuais após a instalação. Em Portugal, recomenda-se rega pelo menos nos dois primeiros anos e sempre que o clima o justifique.

Numa cobertura intensiva, a manutenção aproxima-se da de um jardim convencional, com custos e cuidados mais regulares.

Antes de decidir: o que verificar



A boa notícia é que uma cobertura verde pode ser instalada num edifício existente, e não apenas em construção nova. A má notícia é que a decisão não deve ser tomada de ânimo leve. Há verificações prévias que fazem a diferença entre um investimento acertado e um problema caro.

* A estrutura aguenta? Este é o primeiro filtro. O peso de uma cobertura saturada de água é considerável, e a laje tem de estar dimensionada para o suportar. Um telhado inclinado tradicional ou um edifício do centro histórico raramente são candidatos naturais.

* A impermeabilização está em condições? Não faz sentido instalar todo o sistema sobre uma membrana no fim de vida. Se a impermeabilização precisa de intervenção, deve ser tratada antes de começar a obra.

* Que tipo escolher? Se o objectivo é desempenho técnico e baixa manutenção, a solução extensiva pode chegar. Se quer um espaço para usar e estar, a cobertura intensiva impõe-se, com o custo e a exigência estrutural que traz.

* Quem projeta e executa? Uma das razões apontadas para a lenta adopção de coberturas verdes em Portugal é a falta de empresas especializadas. A escolha de quem projecta, instala e mantém é determinante.

Existe um guia técnico nacional para projecto, construção e manutenção destas coberturas, lançado em 2020 pela Associação Nacional de Coberturas Verdes em conjunto com a ANQIP, que serve de referência ao sector.

Um projecto bem executado e com manutenção regular reduz significativamente o risco de problemas. As falhas surgem, em geral, devido a projecto deficiente, má instalação ou ausência de manutenção.

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